Quando começamos a montar nosso roteiro pela Costa Leste dos Estados Unidos, existiam dois caminhos bem óbvios entre Filadélfia e Washington DC.
O primeiro era seguir por Baltimore. O segundo era fazer um pequeno desvio pela costa de Maryland e passar por uma cidade que nunca aparece nos roteiros de brasileiros: Annapolis.

Escolhemos a segunda opção.
Não porque tivesse uma atração específica que “precisávamos” conhecer.
Mas justamente porque é o tipo de lugar que queremos mostrar por aqui: diferente, que você nem sabia que existia, mas que depois dá vontade de voltar muitas vezes.
Depois de dias vivendo o ritmo intenso de Nova York, na Filadélfia e a caminho de Washington, a ideia de passar uma noite numa cidade costeira, pequena e histórica parecia exatamente o respiro que nossa viagem precisava. E foi mesmo.
Talvez até mais do que imaginávamos.

Chegando em Annapolis
Chegamos já de noite. Daquelas noites completamente silenciosas. As ruas praticamente vazias e com pouquíssima iluminação. E, mesmo assim, dava para perceber que havia alguma coisa diferente naquele lugar.
As fachadas antigas apareciam discretamente entre os postes. As calçadas de tijolos. As construções históricas. Tudo parecia muito preservado.
A sensação era curiosa. Não era uma cidade cenográfica. Parecia simplesmente uma cidade que nunca teve pressa de mudar.
Nosso hotel parecia ter saído de um filme antigo
Nos hospedamos no Historic Inns of Annapolis, um conjunto de hotéis históricos espalhados pelo centro da cidade.
Na nossa reserva aparecia apenas o complexo, mas, chegando lá, descobrimos que ficaríamos justamente no Maryland Inn. E isso explica muita coisa.


O Maryland Inn existe desde 1772, ainda no período colonial americano. Ao longo dos séculos recebeu políticos, militares, viajantes e personagens importantes da história do país. Hoje continua funcionando como hotel, preservando boa parte da arquitetura e do estilo original.
Entrar ali era quase como entrar em outra época. Corredores estreitos, escadas antigas, madeira por todos os lados. Aquela decoração clássica de hotel histórico americano. Na hora brincamos entre nós:
— Esse hotel tem muita cara de filme de fantasma.
Claro que fizemos o que qualquer pessoa curiosa faria. Fomos pesquisar.
E descobrimos que realmente existem histórias e relatos envolvendo aparições em um dos prédios do complexo. Adivinha qual? Exatamente o nosso.
E adivinha em qual andar costumam acontecer os relatos? O quarto andar. O andar onde estávamos hospedados.
Confesso que os dois ficaram meio agitados e não dormiram bem, rs.
(E, no fim das contas, o único susto real da hospedagem nem teve nada de sobrenatural: foi uma barata enorme que resolveu aparecer perto do horário do nosso check-out.)
Apesar disso, gostamos bastante do hotel. A localização é excelente, bem no coração do centro histórico, e faz parte da experiência de dormir em um prédio que atravessou mais de dois séculos de história.
Ghost tours em Annapolis
Uma curiosidade divertida é que Annapolis também é conhecida pelos seus ghost tours, passeios noturnos guiados que contam histórias de antigos moradores, lendas locais e supostos acontecimentos sobrenaturais pelas ruas do centro histórico. Faz até sentido: poucas cidades americanas preservam tantos prédios dos séculos XVIII e XIX quanto Annapolis, então não faltam histórias (reais ou não) para alimentar o imaginário. Nós não fizemos o tour, mas, depois de descobrir que estávamos justamente no quarto andar do hotel que aparece em alguns desses relatos, confesso que a brincadeira ficou ainda mais divertida. 👻
Mas não dá pra negar que ambos dormiram mal e agitados, depois de ter lido essas histórias e curiosidades na internet.
Annapolis parece ter encontrado um jeito de preservar o tempo
No dia seguinte entendemos melhor por que a cidade é tão especial.
Annapolis foi fundada em 1649 e chegou a ser a primeira capital dos Estados Unidos antes de Washington, D.C. assumir esse papel. Boa parte do centro histórico continua preservada, com dezenas de construções dos séculos XVIII e XIX ainda em uso.
E talvez seja justamente isso que mais chama atenção. Nada parece um museu. As casas antigas continuam sendo casas. Os prédios históricos continuam funcionando.
As pessoas vivem ali normalmente. É uma cidade histórica… mas viva.
Eu adoro observar arquitetura durante as viagens. Enquanto muita gente entra nas lojas, eu fico olhando fachadas, portas, janelas e imaginando quantas histórias aquele lugar já viu passar. Annapolis é um prato cheio para quem também gosta disso.
Tem ruas inteiras onde parece que o tempo simplesmente resolveu desacelerar. E, ao mesmo tempo, tudo é extremamente bem cuidado. Adoro isso nas cidades históricas dos EUA: sempre são muito bem preservadas.

Uma cidade feita para ser explorada sem pressa
Deixamos o carro em um estacionamento pago e fizemos absolutamente tudo caminhando.
Na verdade, acho que essa é a melhor forma de conhecer Annapolis. O centro histórico tem várias restrições para estacionamento nas ruas, o que acaba deixando a região muito mais agradável para quem está a pé.
Sem trânsito, buzinas. Sem aquela sensação de cidade dominada por carros. Só caminhadas tranquilas entre praças, igrejas e construções históricas.


Passamos pela Church Circle, onde fica a belíssima St. Anne’s Episcopal Church, seguimos até a State Circle, dominada pelo Capitólio de Maryland — o State House, que continua sendo o mais antigo capitólio estadual em uso legislativo contínuo dos Estados Unidos — e fomos entrando em ruas sem destino, apenas observando as casas.
Às vezes a melhor programação de uma cidade é justamente não ter programação.
Depois o cenário muda completamente
Uma das coisas mais legais de Annapolis é que ela parece reunir duas cidades em uma só.
De um lado está o centro histórico. Do outro, Eastport.

Basta atravessar a ponte para encontrar um ambiente completamente diferente. Ali aparecem as marinas. Os veleiros. Os restaurantes especializados em frutos do mar, clima costeiro.
É também nessa região que fica a Academia Naval dos Estados Unidos (United States Naval Academy), uma das instituições militares mais tradicionais do país e responsável pela formação de oficiais da Marinha e dos Fuzileiros Navais.
Mesmo para quem não pretende fazer a visita guiada, caminhar pelos arredores já muda totalmente a atmosfera da cidade.
Crab cakes: uma das melhores comidas da viagem
Se existe um prato que representa Maryland, é o crab cake.
Basicamente um bolinho feito quase inteiramente de carne de siri azul, muito comum nas águas da Baía de Chesapeake. Escolhemos experimentar no Boatyard Bar & Grill. E foi uma escolha certeira.


Pedimos um crab cake para dividir e também um crab & artichoke dip servido com torradas. Os dois estavam excelentes. Daquele tipo de comida que conforta, muito saborosa.
Foi uma das refeições que mais gostamos durante toda a viagem. E ainda fomos recebidos por uma equipe extremamente simpática.
Aliás…
É impressionante como cidades pequenas mudam completamente a forma como você conhece um lugar
Essa é uma coisa que sempre acontece com a gente nos Estados Unidos. Nas cidades menores, as conversas simplesmente acontecem.
Enquanto visitávamos a igreja principal do centro histórico, acabamos conhecendo o responsável pela administração do local, um ex-oficial da Marinha. O que seria um rápido cumprimento virou uma conversa de quase quarenta minutos.
Ele queria saber como era o Brasil. Por que tínhamos escolhido Annapolis. Como era produzir conteúdo sobre viagens. Nós queríamos ouvir as histórias dele. Ele queria ouvir as nossas. Foi uma daquelas conversas que dificilmente aconteceriam em uma cidade grande.
E acho que esse é justamente um dos motivos pelos quais gostamos tanto de incluir cidades menores nas nossas roadtrips. Você deixa de conhecer apenas lugares. E passa a conhecer pessoas.
Mesmo estando na costa leste dos Estados Unidos, Annapolis tem uma alma de cidade do interior. Existe uma hospitalidade muito espontânea.
Valeu a pena escolher Annapolis?
Muito.
Quando seguimos viagem rumo a Washington DC, tivemos aquela sensação boa de que um simples desvio na estrada tinha rendido algumas das memórias mais gostosas de toda a roadtrip.
Annapolis provavelmente nunca vai disputar espaço com Nova York ou Washington nas listas de destinos mais famosos dos Estados Unidos.
E talvez seja justamente isso que a torne tão especial. É uma cidade onde a melhor atração não é um monumento. É o ritmo. É caminhar sem compromisso.
Observar casas que atravessaram séculos. Comer um ótimo crab cake olhando os barcos. Conversar com moradores. Perceber como uma cidade pequena pode revelar um lado completamente diferente dos Estados Unidos.
Saímos de lá com vontade de voltar. Não porque sentimos que faltou conhecer alguma atração. Mas porque algumas cidades dão essa sensação rara de que seriam ótimas até para fazer… nada. Só caminhar mais um pouco pelas ruas.
E, pra mim, esse costuma ser o maior sinal de que um lugar realmente valeu a viagem.



