Idaho Falls: a cidade que era só uma parada no caminho para Yellowstone

Idaho Falls não estava nos nossos planos. E essa é uma das coisas que eu mais gosto em roadtrips: por mais que a gente organize a rota, escolha os parques e tenha alguns lugares que quer muito conhecer, sempre sobra espaço para aquilo que a gente não planejou.

E Idaho Falls foi exatamente assim.

Essa viagem foi a nossa maior roadtrip até então. Foram 12 dias de carro pelo oeste dos Estados Unidos, começando em Las Vegas, passando pelo Grand Canyon, atravessando Utah, subindo em direção a Yellowstone e, depois, terminando em São Francisco.

Dormíamos em motéis de estrada e acordávamos praticamente todos os dias em uma cidade diferente. E, mais do que isso, em uma paisagem diferente.

Deserto, floresta, montanha. Estradas enormes em que parece que o horizonte está sempre um pouco mais longe. E foi dirigindo por essa parte do país que começamos a pensar: “Nossa, os brasileiros precisam conhecer mais esse lado dos Estados Unidos”.

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Porque existe um Estados Unidos que a gente conhece muito bem antes mesmo de viajar. Nova York, Miami, Orlando, Los Angeles, Las Vegas. Mas tem outro que aparece quando você começa a ligar esses pontos de carro. Foi nessa estrada que Idaho Falls apareceu pra gente.

Era só para dormir

A gente estava procurando uma cidade no caminho entre Salt Lake City e Yellowstone onde pudesse passar a noite e continuar a viagem cedo no dia seguinte.

Idaho Falls fazia sentido pela localização. A cidade fica no leste de Idaho e entra naturalmente na rota de quem sobe de Salt Lake City pela I-15 e depois segue pela US-20 em direção a West Yellowstone.

Não sabíamos praticamente nada sobre ela.

Chegamos à noite e fomos dormir no Best Western Driftwood Inn, um daqueles motéis americanos em que você estaciona, entra no quarto, dorme e, no dia seguinte, continua a estrada. Ou pelo menos era esse o plano.

Quando acordamos, a primeira surpresa foi descobrir que aquilo que na noite anterior parecia apenas um lugar conveniente para dormir ficava bem em frente ao Snake River. Não era um lago, como eu lembrava: era o rio atravessando a cidade, com as quedas d’água que deram nome a Idaho Falls.

E o nosso motel ficava literalmente ali, diante dele. O Best Western Driftwood Inn fica na River Parkway, de frente para o Snake River e para as falls, além de estar ao lado da área de caminhada que acompanha o rio. E ai a parada aleatoria ficou muito mais interessante.

Idaho Falls no outono

A gente tinha acordado com aquela pressa típica de roadtrip. Toma café, coloca as malas no carro e vamos embora porque Yellowstone está esperando.

Só que eu saí do quarto e comecei a olhar em volta.

Era outono, e Idaho Falls estava toda laranja e amarela. O céu estava azul, fazia aquele frio gostoso com sol e o rio passava bem na nossa frente, cercado de árvores e gramados. A sensação era de ter acordado no cenário de algum filme da Sessão da Tarde.

E não porque tivesse alguma atração grandiosa ali. Acho que foi justamente o contrário. Era uma cidade pequena, tranquila, com gente caminhando perto do rio, árvores mudando de cor e aquela paisagem americana que a gente reconhece dos filmes, mas nem sempre sabe onde encontrar na vida real.

O mais curioso é que o rio não é só uma paisagem bonita da cidade. A área ao redor dele faz parte da vida de Idaho Falls. Existe um sistema de parques e caminhos junto ao Snake River, conhecido como River Walk ou Greenbelt, usado para caminhar, correr e pedalar. Até o próprio motel empresta bicicletas aos hóspedes para percorrer essa área.

Acho que foi isso que fez a gente gostar tanto dali. Não parecia um lugar montado para turista parar, tirar uma foto e seguir viagem. Era simplesmente uma manhã comum em Idaho Falls.

Café de motel e uma caminhada que não estava no roteiro

Outra coisa que aprendemos bastante nessa road trip foi a dinâmica dos motéis americanos.

Muitos dos lugares em que ficamos tinham café da manhã incluído na diária, o que para uma viagem de 12 dias de carro fazia bastante diferença. Você acorda, toma café e já sai pronto para pegar a estrada.

No Driftwood Inn também era assim, hoje o hotel continua oferecendo café da manhã completo incluído na hospedagem.

Tomamos café e eu saí com meu cafezinho na mão para caminhar perto do rio.

É uma lembrança tão simples dessa viagem, mas acho que é justamente por isso que ficou.

Não era Yellowstone. Não era Grand Canyon. Não era nenhum daqueles lugares que a gente tinha atravessado o país para conhecer. Era só uma manhã fria, com sol, um copo de café na mão e uma cidade de Idaho que, até a noite anterior, eu nem sabia direito como era. E foi uma delícia.

A pressa de chegar cedo ao parque foi ficando um pouco menos importante. Ficamos andando por ali, olhando o rio, as árvores, as casas, as quedas d’água. Foi uma daquelas pequenas mudanças de planos que a estrada faz pela gente.

E acabamos voltando

O mais engraçado é que Idaho Falls tinha sido escolhida apenas como uma parada estratégica. Só que gostamos tanto da experiência que, na noite seguinte, voltamos.

Hospedar-se perto das entradas de Yellowstone pode pesar bastante no orçamento, principalmente dependendo da época e da antecedência da reserva. Como estávamos de carro e tínhamos gostado de Idaho Falls, preferimos fazer o caminho de volta e dormir ali novamente.

E acho que essa segunda noite resume bem o que a cidade acabou representando naquela viagem.

Na primeira, chegamos porque precisávamos dormir em algum lugar.

Na segunda, voltamos porque queríamos.

Talvez seja essa a melhor parte de uma roadtrip

Quando penso nessa viagem hoje, claro que lembro do Grand Canyon. Lembro de Yellowstone, das paisagens de Utah, de Las Vegas e de chegar a São Francisco depois de tantos dias na estrada.

Mas lembro também de Idaho Falls. E isso diz muito sobre o que uma road trip pode ser.

Quando a gente viaja de avião de um destino para outro, conhece os pontos. Quando vai de carro, começa a conhecer também o espaço que existe entre eles.

As cidades onde ninguém tinha planejado parar. Os postos de gasolina. Os motéis. Os cafés da manhã. A mudança da vegetação pela janela. O momento em que o deserto começa a desaparecer e aparecem montanhas e florestas. A temperatura que muda. As cidades que ficam menores. O ritmo da viagem que muda junto.

Foi atravessando esse pedaço dos Estados Unidos que começamos a perceber o tamanho da diversidade que existia fora dos destinos que nós, brasileiros, costumávamos conhecer melhor.

Idaho Falls entrou nessa história quase sem querer.

Não sei se eu organizaria uma viagem inteira para chegar até lá. Mas, numa roadtrip entre Salt Lake City e Yellowstone, eu não trataria a cidade apenas como um lugar para dormir.

Pra mim, ela ficou como uma lembrança de que estrada boa não é só aquela que leva a algum lugar interessante. Às vezes, o lugar interessante estava no caminho.

Heloísa Rinaldi
Heloísa Rinaldi

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